Último entrevistado da minissérie ‘Novembro Negro’ fala sobre racismo institucional e invisibilização da produção científica de pesquisadores negros

novembro negro Robenilson2

Contribuir para superação do racismo, do preconceito e da discriminação é umas das principais bandeiras da Psicologia enquanto ciência e profissão. A Resolução 018/2002 do CFP estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial e determina em seu Art. 1º que “Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo.”.

O CRP-23 apresenta uma minissérie de entrevistas com psicólogas(os) negras(os) pautando a relação e o compromisso da psicologia com as questões raciais.

O último entrevistado, psicólogo psicanalista Robenilson Moura Barreto (CRP 23/1663), é Coordenador da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(as) e Pesquisadoras(es) (ANPSINEP) e fala sobre racismo institucional e invisibilização da produção cientifica de pesquisadoras(es) negras(os), além de outras abordagens quanto a discussão das relações raciais e descolonização do conhecimento na academia.

Robenilson também é especialista em Educação Especial e Inclusiva, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (PPGP-UFPA), Pesquisador do Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia Fundamental da Universidade Federal do Pará (LPPF/UFPA). Atualmente é parte do corpo docente do curso de Psicologia na Faculdade Católica Dom Orione (Araguaína-TO). Conheça:

CRP23A que se propõe e como funciona a Articulação Nacional de Psicólogas (os) Negras (os) e Pesquisadoras (es)?

ROBENILSONO racismo constitui uma das questões mais fundamentais para a compreensão dos processos de exploração e dominação instalados na sociedade brasileira. Entendendo que a Psicologia brasileira em seus processos históricos de institucionalização, não fugiu a essa regra, originando-se numa epistemologia das concepções eugênistas e racistas que fortaleceu o mito da democracia racial, caracterizada por uma importante omissão frente à temática das relações raciais, a ANPSINEP se funda como uma organização política nacional inserida no processo de luta e de tomada de consciência da necessidade de organização e mobilização das(os) psicólogas(os) comprometidos com o enfrentamento ao racismo e todas as formas de discriminação, como um importante recurso político. Tem por objetivo responder a lacuna existente entre as necessidades sentidas e a pouca construção técnica – política disponível, frente às possibilidades de contribuição da psicologia para as relações raciais, compreendendo também que essa causa não é só nossa, mas de todas (os) as(os) psicólogas(os), negras(os) e não-negras(os).

CRP23Enquanto pesquisador negro, você tem percebido o racismo nos espaços de produção e divulgação científica? Como?

ROBENILSONImportante apontar que, somente no início do século XX, a Psicologia, juntamente com outras ciências médicas começam a construir um pensamento científico sobre a raça. Os trabalhos produzidos apresentavam associações entre características étnico-raciais e tipos de caráter, atribuindo-se certas formas de doença mental como típicas de determinadas etnias-raças se construindo como mais uma ciência eugenista. Esses estudos ganharam notoriedade na comunidade científica contribuindo para manutenção da hierarquização das raças no Brasil. Contudo, somente a partir da década de 1990 a Psicologia brasileira, de forma incipiente, iniciou alguns trabalhos que começaram a organizar um pensamento sobre a estrutura social pautada numa política de branqueamento da população e o processo de racialização dos brancos chamado de branquitude. Entretanto, após a conquista do movimento negro diante das ações afirmativas nas universidades que estimulou o ingresso de estudantes negras, tivemos uma crescente produção acadêmica sobre a temática. Mas, infelizmente muitas dessas produções ainda estão invisibilizadas na academia e em algumas revistas de Psicologia. Fato que nos leva a compreender a dimensão do racismo institucional, tendo em vista o histórico da psicologia como uma ciência branca, elitista e machista. 

CRP23Enquanto docente, como você trata as questões raciais no ambiente acadêmico?

ROBENILSON – Eu sou um Psicólogo negro, Ativista do movimento negro, oriundo das ações afirmativas na universidade. Minhas experiências na graduação como estudante negro, em que buscava compreender a Psicologia por um viés das relações raciais dizia o quanto a formação estava omissa neste debate. A minha inserção nos movimentos estudantis de Psicologia, no sistema conselho e em diversos espaços de controle social contribuíram para uma formação com um olhar ainda mais atento para a importância de construir uma discussão sólida para um novo fazer psicológico. Eis que a dificuldade de discutir estas questões insiste em se apresentar no Programa de Pós-graduação em Psicologia ao me deparar com a quantidade ínfima de produção acadêmica sobre as relações raciais. Logo deu para compreender o “não lugar” dessas discussões em espaços de poder e privilégio. Não era difícil compreender como a sociedade se encontra estruturada para não pensar sobre o racismo e seus impactos na subjetividade dos brancos e negros no Brasil. Diante das dificuldades apresentadas entendi que o meu lugar na docência poderia ser um lugar político e estratégico para contribuir com uma formação ética, pautada nos Direitos Humanos e comprometida com o enfrentamento do racismo em várias instancias de atuação. Com isso, o trabalho na docência tem o papel de articular o tema das relações raciais na formação, pesquisa e extensão, passando por todas as disciplinas articuladas com um trabalho interdisciplinar juntamente com outras professoras. Não tem sido fácil trabalhar essas questões pensando no racismo estrutural e institucional que encontramos cotidianamente nos espaços de poder. Mas é importante que instancias como a ANPSINEP, a ABEP, o Sistema Conselhos provoquem as instituições para trabalhar essa lacuna na formação e no fazer psicológico.

CRP23Você acha que a Psicologia, em seus múltiplos espaços de atuação, tem enfrentado o racismo? De que forma?

ROBENILSON – Diante do racismo estrutural e institucional ainda não podemos afirmar que a Psicologia como ciência e profissão tem enfrentado o racismo. Contudo, nos últimos anos, o Sistema Conselhos tem apresentado a categoria, a resolução 018/2002, a referencias técnica para atuação das Psicólogas (os) com as relações raciais e campanhas de divulgações. Porém, se não formarmos e trabalharmos Psicólogas (os) comprometidas (os) com a temática das relações raciais e com o enfrentamento do racismo continuaremos contribuindo para uma práxis Psicológica que durante muito tempo fortaleceu o mito da democracia racial, caracterizada por uma importante omissão frente ao debate. Fundamentalmente é importante que a categoria se aproxime do Sistema Conselhos para garantir que essa discussão esteja como pauta prioritária para reposicionar a atuação da Psicologia na sociedade brasileira. 

CRP23Na sua opinião, podemos dizer que a Psicologia está alinhada ao debate antirracista?

ROBENILSON – Para que a Psicologia esteja alinhada com uma prática antirracista é necessário institucionalizar o tema das relações raciais em suas práticas. Podemos aqui apontar alguns caminhos. É de fundamental importância reposicionar a Psicologia epistemologicamente diante de uma produção científica eurocentrada e que não contempla nos seus escopos os saberes construídos diante da história da população negra no Brasil. Uma outra possibilidade é construir novas práticas Psicológicas que possam compreender e intervir nas demandas da população negra com o sentido de coletividade e para garantia dos direitos pautados na compreensão ampla do compromisso social e essencialmente nos Direitos Humanos. Estar alinhado com o Debate antirracista é descolonizar o conhecimento em todos os aspectos da formação e da concepção de Psicologia que temos construído até aqui.

Comente via Facebook

Comentário(s)