I edição da Mostra Cultural SaudavelMente movimenta debate sobre a luta antimanicomial em Palmas

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Com o lema ‘Não quero choque, nem grade. Quero cuidado em liberdade’, foi realizada no dia 28 de maio a I edição da Mostra Cultural SaudavelMente, uma iniciativa do Coletivo da Luta Antimanicomial em Palmas (COLAPA) com o apoio do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP-23).

A mostra aconteceu das 09 às 21h no Espaço Cultural José Gomes Sobrinho, em Palmas-TO, onde foram promovidos diversos espaços de convivência, debate, formação e produção artística e cultural. As atividades foram desenvolvidas coletivamente com usuários e profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial, organizações parceiras e militantes dos direitos humanos em apoio à luta antimanicomial.

Tratando-se de uma atividade construída a muitas mãos, a mostra envolveu uma diversidade de organizações e impulsionadores de arte, dentre eles o músico líder do grupo ‘Fisionomia do Rap’, vice-presidente da Associação Palmas Hip-Hop, e trabalhador da Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas, Mano Wilson, que durante a mostra conduziu as oficinas de rima e hip-hop/breaking com o objetivo de, segundo ele, “inspirar as pessoas a serem protagonistas da própria história.”.

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“Nós sabemos que dentro dos CAPS existem muitos talentos, tanto na música como na poesia. As pessoas necessitam de um acolhimento e o hip hop é isso é uma ação cultural, projeto de ação social que resgata.”, afirma o músico destacando que eventos como esse precisam ser fortalecidos com os usuários.

Outro grande parceiro da I Mostra SaudavelMente foi o Coletivo Desencuca, uma organização autogerida que promove espaços de convivência, cultura e promoção da saúde mental. Durante a Mostra, o Coletivo desenvolveu oficina de percussão e promoveu um cortejo musical guiado pelo bloco Desencuca.

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Cecília Kanda, administradora, promotora de formação e motivadora sócio cultural do Coletivo, conta que o Desencuca incentiva a troca afetuosa entre as pessoas independente da vulnerabilidade dos públicos. “Estamos sempre incentivando as trocas de conhecimento entre as pessoas e se fortalecendo naquilo que cada um acredita, eliminando rótulos e fazendo com as pessoas possam ressignificar suas vidas a partir daquilo que sentem prazer em fazer.”.

A terapeuta ocupacional Marla Castro, trabalhadora do CAPS II de Palmas e membra do COLAPA e do Coletivo Desencuca, fala sobre a proposta de diálogo com a sociedade estimulada durante a mostra para discutir questões da saúde mental e refletir alternativas de tratamento inclusivo sob a perspectiva da arte e da cultura.

“É uma forma de a gente mostrar pra sociedade que acreditamos no tratamento em liberdade, no cuidado em liberdade, a favor da reforma psiquiátrica e contra a política de retorno aos hospitais psiquiátricos defendida pelo atual ministério da saúde.”.

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Uma das organizadoras da mostra, Marla destaca que o evento partiu da iniciativa dos usuários dos Centros de Atenção Psicossocial.

 “Os usuários do CAPS solicitaram uma atividade, uma ação de rua, onde pudéssemos usar um dispositivo público da cidade. Eles falaram que queriam mostrar beleza, mostrar alegria, e não o lado ruim que muitas vezes é visto pela sociedade.”.

Dentre as pessoas atendidas nos Centros de Atenção Psicossocial que participaram da construção de espaços durante a mostra, estava a jovem Débora Nogueira, expondo e comercializando os mobiles de tsuru que aprendeu a confeccionar em uma das oficinas de geração de renda ofertada aos usuários do CAPS II em Palmas.

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“Nunca tinha mexido com agulha, nunca tinha tido autonomia para produzir um trabalho desse tipo. Descobri minha habilidade no CAPS, porque sozinha eu não me sentia capaz.”, conta Debora sobre a experiência desafiadora de expor o seu trabalho após dois meses de prática na oficina.

Sobre a mostra, Débora sugere que seja realizada com mais frequência e não apenas no mês de maio e convida a sociedade a conhecer os Centros de Atenção Psicossocial, pois, segundo ela, nesses espaços é possível desmistificar a imagem que a maioria das pessoas tem sobre os usuários.

“Nós estamos vivos dentro dos CAPS. Nessa mostra estamos mostrando para a sociedade que não somo invisíveis. As pessoas deveriam ir lá no CAPS visitar para ver como funciona. Pra ver que não é lugar de doido, é lugar de gente.”.

Presidente do CRP-23, o psicólogo Jonatha Rospide explica que o Sistema Conselhos de Psicologia de um modo geral, desde o inicio da reforma psiquiátrica no Brasil, vem apoiando o movimento social de usuários, trabalhadores e familiares, dentro da proposta da reforma psiquiátrica, ou seja, da extinção do manicômio e da criação do serviço substitutivo de acordo com o modelo da atenção psicossocial.

Jonatha fala também sobre a importância da militância para a garantia dos direitos dos usuários, de forma que a pessoa com transtorno mental tenha direitos como qualquer outra pessoa e receba o tratamento devido de acordo com a sua necessidade.

“Essa questão desses retrocessos que o atual governo vem tentando fazer, mobilizam ainda mais as pessoas envolvidas: usuários, trabalhadores e militantes, para fortalecer a política de saúde mental. Eu entendo que a mostra foi um momento muito potente para isso, porque conseguimos juntar as universidades, os conselhos de classe, a população em geral, e em especial os usuários, familiares e trabalhadores da rede de atenção psicossocial e isso tudo por meio da arte, que é um grande mecanismo para potencializar esse trabalho.”.

Além das pessoas e organizações citadas no texto, também participaram como apoiadores e colaboradores da I edição da Mostra Cultural SaudavelMente: Feira das Manas, Baque Mulher/TO, Trupeaçu, Prefeitura de Palmas, Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas, CREPOP/TO, Cine Cultura de Palmas, o educador social Otto Caetano, a educadora física Sheila Baraki, as psicólogas Ana Carolina Peixoto, Elaine de Souza, Glória Lúcia de Paula, e os psicólogos Piettro Lamounier e Gilberto Davi Filho.

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