CRP-23 abre minissérie de entrevistas para visibilizar o Novembro Negro; Conheça a primeira entrevistada!

novembro negro

Contribuir para superação do racismo, do preconceito e da discriminação é umas das principais bandeiras da Psicologia enquanto ciência e profissão. A Resolução 018/2002 do CFP estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial e determina em seu Art. 1º que “Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo.”.

Para dar visibilidade ao Dia Nacional da Consciência Negra, durante o mês de novembro o CRP-23 apresenta uma minissérie de entrevistas com psicólogas(os) negras(os) pautando a relação e o compromisso da psicologia com as questões raciais.

Conheça a nossa primeira entrevistada:
Evelly Silva é psicóloga, egressa do CEULP/ULBRA, neuropsicóloga em formação pelo Instituto de Pós Graduação e Graduação do Tocantins (IPOG), psicóloga clínica numa frente antirracista, antissexista e anticlassista, com uma visão de mundo sistêmica, coordena um grupo de escuta terapêutica para mulheres negras em Palmas, é ativista pelos direitos humanos, pelo SUS e no movimento negro.

CRP23 – Como surgiu a ideia da escuta terapêutica para mulheres negras em Palmas? Como o grupo funciona?

EVELLY – A ideia de criação do grupo de escuta terapêutica para mulheres negras surgiu de um desejo que cultivei em mim desde que entrei em contato com os estudos interseccionais que norteiam juntamente com a visão de mundo sistêmica a minha atuação hoje. Olhar para os fenômenos sociais e para as intersecções dos temas gênero, raça, classe, sexualidade, origem, dentre outros, me fez compreender a necessidade de me posicionar enquanto profissional em saúde, em medidas e ações antirracistas, antisexistas, anticlassistas… Desse modo, ao promover um espaço de escuta para mulheres negras, criamos juntas também um espaço de ação e não apenas reação frente às estruturas de opressão social. É organizar um espaço de apoio, de escuta e de fala que trás esse público para o centro das discussões e não para a margem, como geralmente somos colocadas enquanto mulheres negras.

CRP23 – Não faz muito tempo que você concluiu a graduação, como você percebeu a abordagem das questões raciais no ambiente acadêmico?

EVELLY – A experiência que carrego da graduação em se tratando dos temas voltados as relações raciais foram importantes, ainda que poucas, tive contato com falas e com experiências e cheguei a vivenciar a cultura dos povos indígenas, quilombolas e de mulheres quebradeiras de coco no estado do Tocantins, mas percebi com essas vivências um esvaziamento dos espaços onde esses sujeitos estão. Num evento de grande porte, por vezes os acadêmicxs lotam salas pra ouvir e falar de transtornos e disfunções, mas não se propõem a dar atenção a fala de pessoas indígenas, pessoas com deficiência, ou mulheres negras por exemplo… Compreendo que seja importante a movimentação dessas instituições em dar maior destaque e visibilidade para esses públicos, mas xs acadêmicxs também precisam se implicar no processo de aprendizagem sobre aquilo que não lhe é comum, com o olhar do estranhamento, mas sem a fetixização desses corpos e dessas culturas como foi o que percebi acontecer na minha época de graduação.

CRP23 – Você acha que a psicologia, enquanto formação, contempla o debate antirracista?

EVELLY – A psicologia enquanto formação tem muito a aprender e a se implicar no debate e nas ações antirracistas. Quando falamos de psicologia, ainda estamos falando de um lugar de privilégios e de conhecimento ainda muito embranquecido e colonizado. É preciso implicar nessa formação o olhar para os temas gênero, raça, classe, origem e sexualidade não como vieses, mas como temas que afetam diretamente a vida de uma sociedade. O processo de descolonização do conhecimento é necessário e a psicologia como ferramenta de proteção e defesa dos direitos humanos precisa estar nesse movimento.

CRP23 – Como a psicologia, enquanto profissão, contribui e como ainda pode contribuir para o combate ao racismo?

EVELLY – A psicologia enquanto profissão, se alinhada com o comprometimento social, a defesa dos direitos humanos, o código de ética profissional e atenta aos processos sociais, históricos e estruturais, pode atuar tanto na prevenção da repercussão de atitudes, relações e formas de pensar racistas ao incutir nos sujeitos e comunidades um olhar de corresponsabilização e de reconhecimento de privilégios ou da inexistência destes nos espaços, assim como pode auxiliar na redução dos danos causados por essas estruturas sociais de opressão na vida de sujeitos que têm sido atravessados pelo racismo.

CRP23 – Você acha que o atendimento psicológico oferecido em Palmas, tanto pelo SUS quanto pelas clínicas particulares, está apto para atender as especificidades da população negra? Por quê?

EVELLY – Em se tratando das relações raciais em Palmas, sinto que há um processo de invisibilização e patologização das demandas que desembocam no racismo sofrido por pessoas negras. Os profissionais de saúde e não apenas psicólogas, precisam se atentar para esses fatores de risco e também em como intervir nesses processos. Ainda vejo alguns profissionais da nossa categoria se implicarem no processo, principalmente profissionais negrxs. Desse modo também é preciso questionar o papel dos privilégios na vida de profissionais brancos que ainda não se implicaram em atuações de trabalho numa perspectiva antirracista. Afinal, o racismo é um problema que atinge os negros, mas também é um problema de brancos. E todos precisam estar sensibilizados com a causa, não somente quando alguém próximo passa por um evento racista, mas porque somos profissionais e porque nossa profissão também se baseia na compreensão de como a sociedade se organiza e o que repercute/influencia na vida e na história das pessoas.

Comente via Facebook

Comentário(s)