A terceira entrevistada da minissérie ‘Novembro Negro’ é conselheira do CRP-23 e fala sobre pessoas negras em cargos representativos e gestão atenta às questões raciais

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Contribuir para superação do racismo, do preconceito e da discriminação é umas das principais bandeiras da Psicologia enquanto ciência e profissão. A Resolução 018/2002 do CFP estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial e determina em seu Art. 1º que “Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo.”.

Para dar visibilidade ao Dia Nacional da Consciência Negra, durante o mês de novembro o CRP-23 apresenta uma minissérie de entrevistas com psicólogas(os) negras(os) pautando a relação e o compromisso da psicologia com as questões raciais.

A nossa terceira entrevistada, psicóloga Mariana Miranda, é conselheira efetiva do CRP-23 e, dentre outras questões, fala sobre a presença de pessoas negras em cargos representativos e políticos no Brasil e sobre como a atual gestão do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins pretende pautar as questões raciais.

Mariana Miranda é especialista em Gestão de Pessoas e mestra em Psicologia Clínica e Cultura. Já atuou nas áreas de gestão e formulação de políticas públicas no campo dos direitos sexuais de crianças e adolescentes. Atualmente é docente do curso de Psicologia da UNITPAC-Araguaína e realiza atendimento clínico. É também uma das idealizadoras do grupo de escuta ativa Cerradeiras.

CRP23 Enquanto mulher negra, qual a responsabilidade de estar conselheira do CRP-23?

MARIANAA responsabilidade é um pouco conflituosa. É super importante salientar a baixa quantidade de pessoas negras, se comparadas às brancas, que ocupam cargos representativos e políticos. Segundo dados recentes do IBGE, a população negra está representada em 24,4% dos deputados federais, 28,9% dos deputados estaduais e 42,8% de vereadores. E se olharmos as condições dessas pessoas nas representações percebemos que também não é a mesma de que a população branca. Para as pessoas negras, ocupar e manter-se nesses espaços é uma trajetória muito cansativa e exaurida porque precisamos sempre ser os melhores. Para mim entra muito nessa questão de que, enquanto mulher negra, eu devo sempre estar bem embasada e saber do quê eu estou dizendo para que minha fala seja levada em consideração. Diante disso, eu tenho que demonstrar uma firmeza, eu tenho que demonstrar muita força, e isso não é o que diz do totalidade do ser humano, porque nós temos momentos de fragilidade. Ao mesmo tempo, o que eu percebo muito é que no geral, enquanto mulher, a gente sempre se cobra para sermos a melhor, mas nos acostumamos a estar num lugar que é mais passivo e silencioso. Então, para mim, é conflituoso nesse ponto de que é difícil falar quando o nosso lugar sempre foi o espaço do silêncio, mas esse espaço não é o quero ocupar. Não estou no Conselho para ocupar o espaço do silêncio. Então é conflituoso, mas é também importante para percebermos o quanto é difícil para a população negra ocupar posições de representatividade política.

CRP23  Como a atual gestão do CRP-23 pretende pautar as questões raciais?

MARIANAComo já é sabido, a gestão do conselho tem que ser feita a partir do que a chapa entende como proposição e também precisa estar imbuída daquilo que a categoria entende como prioritário. Então, nós temos o congresso e os pré-congressos regionais de psicologia, aonde a categoria vai referendar as propostas que ela acha importante para o próximo pleito, de acordo com aquilo que psicólogas e psicólogos vivenciam no próprio exercício profissional. A partir dessas propostas nós estabelecemos que o trabalho questões das relações de gênero, cor, classe e geração são transversais. Então, nosso olhar será sempre transversal tendo que pautar sempre as questões raciais. Por exemplo, agora quando nós estamos tentando efetivar o papel dos psicólogos dentro das escolas não podemos descartar a existência das questões étnico-raciais envolvidas nessas relações de enfrentamento às violências nesses locais. Quando nós fazemos esta proposição, é preciso pensar em como propor também uma escola que seja de acesso democrático e inclusivo a população negra. Um outro ponto que pode ser destacado é que, desde o 1º plenário, o CRP-23 participa de um GT na APAF para discutir as questões étnico raciais. Nesse momento, eu representarei o Conselho nesse espaço com a perspectiva de dar evidência à resolução CFP 18/2002, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial. É importante também considerar que a Psicologia partiu de um lugar da heteronomia, onde as realizações do negro sempre foram tratadas como patológico ou disfuncional. Então, eu acho que tem que ter uma reparação aí. Eu penso muito no que o Fanon fala sobre não ser possível dissociar as questões sociais no olhar ás relações raciais de quando a gente está atendendo esta população. É algo que os(as) psicólogas(os) devem levar para os locais de atuação profissional, enquanto categoria. E aí eu entendo que evidenciar essa resolução é importante. Uma questão que tenho articulado a nível federal é de tentar construir um ponto na Apaf para fazer uma mobilização das universidades pautarem as questões étnico-raciais como ponto de discussão na formação, que tem sido algo bem irrisório, em especial na região norte do país. E uma outra coisa é de que a Psicologia possa produzir pesquisa a partir da fala e do lugar de fala dessa população negra, da população indígena, da população quilombola. Porque no geral, as pesquisas são produzidas com um olhar colonizador. Então estou tentando estabelecer uma articulação a nível federal pra gente atender essas pautas.

CRP23 Porque é importante, para o Conselho de Psicologia do Tocantins, dar luz ao novembro negro?

MARIANANão dá pra falar da psicologia sem olhar para as relações nas quais existe desigualdade, e as questões raciais elas promovem muita desigualdade no país. O Tocantins é um território extremamente imbricado com as questões étnico-raciais. São 19 povos indígenas, cerca de 10.000, de acordo com os últimos dados do sistema de atenção à saúde indígena. De acordo com a secretaria de defesa social, nós temos 44 comunidades quilombolas no estado. Não dá pra gente pensar na psicologia que não olhe pra esse território. Sem falar também que o Ministério da Saúde divulgou uma pesquisa recentemente falando da questão de suicídio dentro da população negra, na qual o Tocantins ocupa a sétima posição com maior proporção de suicídio da população negra: a cada 10.000 pessoas negras 9,7 cometem suicídio. Então olhando para o nosso território é super importante pautar essas discussões e não dá mais pra continuar invisibilizando. Tem que aumentar o alcance da visão das pessoas para essas situações e entender que isso está diretamente relacionado com a produção de subjetividade quanto de saúde mental pra essa população.

CRP23  A que se destina e como funciona o grupo de escuta ativa Cerradeiras?

MARIANAÉ um grupo construído a partir de uma ideia de produzir um local de escuta para mulheres do Tocantins, pensando muito em qual é o nosso lugar enquanto mulheres que vivenciam o cerrado. É um local de escuta e acolhimento pra essas mulheres, mas que possam ser também um movimento de romper com alguns paradigmas e vivências que as mulheres vivenciam neste estado. O nome tem muito a ver com o território em que a gente está, o cerrado, e ao mesmo tempo com o movimento de romper com algumas questões que é quando a gente cerra. Quando começou o grupo, eu e a Larissa sempre dizíamos que a ideia é de propor a construção no Tocantins que seja possível de ter vidas de serem vividas. Porque no geral, em especial enquanto mulher negra, nós temos sido mortas, temos sido silenciadas, e nosso estado não é um lugar que tenha proporcionado vidas pra gente. Há alguns anos as estatísticas, em 2016, apontavam o Tocantins como o sexto lugar com o maior número de feminicídio. Então não dá pra dizer que esse é um local em que as mulheres estão vivendo. Esse grupo ele se destina muito a isso, de propor esse local de escuta, de acolhimento, e em especial para propor junto com outros grupos, outras questões que a gente consiga pensar em lugares em que a gente possa viver aqui nesse estado.

CRP23  Você acha que no Tocantins a escuta em espaços de atendimento psicológico abarca as especificidades da população negra? De que forma?

MARIANAEu ainda não consigo dizer quanto ao Tocantins, porque não tenho dados. Mas posso dizer muito do que eu escuto e do que vivo e isso é uma visão muito a partir do meu olhar mesmo. Ainda não conseguimos dar acesso para a população negra e indígena em um consultório clínico, mesmo considerando dentro das políticas públicas que é um local que a gente pode tornar um pouco mais acessível. Tem-se observado cada vez mais que as políticas públicas andam em uma escassez tanto de recursos financeiros quanto de recursos humanos, de maneira que torna-se difícil possibilitar o acesso aos atendimentos. Uma outra questão que eu tenho pesquisado e observado é que nós temos uma teoria que é branca, então, nós, psicólogos olhamos pras pessoas considerando um olhar médico. O Fanon dizia que a gente só entende o negro a partir da agressividade, da impotência e da inferioridade. Daí eu entendo que a Psicologia ficou olhando o negro a partir dessas questões. E me pergunto até que ponto estamos preparados para atender a população negra? Porque além do pouco acesso, eu não sei se quando chegam nos atendimentos nós conseguimos acolher, entender qual é o lugar de fala, entender quem é essa pessoa. Eu atendo algumas mulheres negras e percebo muito em mim uma dificuldade de, em alguns momentos, como pautar essa questão entendendo que isso tem muito a ver com a vivência das mulheres negras nesse país que é local de solidão, da rejeição. Então como que eu vou colocar essa questão de uma forma que não produza só raiva, que é uma coisa que o Fanon também coloca como importante. A raiva proporciona que seja reconhecido o local de vivência e se disponha a fazer modificações, mas não é a raiva que vai fazer com que a gente lide com isso de forma construtiva. Eu penso muito em como nós vamos colocar isso dentro de um contexto clínico, de uma forma que seja construtiva pras pessoas, de como que a gente vai propor uma reinvenção mesmo da população negra e de uma clínica que esteja pautada com as questões de revolução mesmo. Precisamos modificar essas relações e acho que é preciso pensar numa clínica que seja estética e política, no sentido de ter posicionamento quanto ao que está acontecendo para não entender que sejam só patologias, mas entender que existe uma desigualdade racial que proporciona esse lugar pra essa pessoa e que está muito imbricada na existência dela. Então eu acho que eu sinto um pouco essa dificuldade e acho que a formação tem um papel nisso e nós também. Eu já escutei muitas pessoas negras falando que vão pra terapia e não se sentem escutadas, então eu acho que é de como a gente vai propor um acesso pra população negra e ao mesmo tempo de quando eles estiverem lá como que a gente vai atendê-los. Não sei se nós estamos preparados.

CRP23  Como a psicologia pode atuar efetivamente no combate ao racismo?

MARIANA A psicologia ela pode enfrentar o racismo de algumas maneiras, do meu lugar de fala eu consigo visualizar maneiras de fazer esse enfrentamento. Como eu sou professora penso muito que as nossas teorias, ainda são construídas a partir de um olhar que é eurocêntrico, branco e hegemônico. Sendo necessário dar maior visibilidade para as produções acadêmicas e científicas que dizem de teorias em que dão olhar e voz para as pessoas negras, indígenas, quilombolas. A gente precisa começar a produzir mais pesquisa de uma forma de alegação de conhecimento que é reivindicatório- participatório, que é garantir a voz e promover reivindicações sociais. Essa é uma das maneiras que eu fico pensando a partir da pesquisa que a gente precisa fazer. Uma outra coisa que eu acho que precisamos começar a olhar é compreender as questões políticas e sociais que estão envolvidas no discurso e nas narrativas do ser humano e compreender que isso tem uma produção de subjetividade. É preciso ainda não negar o olhar sobre as relações raciais no discurso do sujeito, isso é uma das formas de enfrentamento. E eu acho que a gente precisa ter posicionamento sobre isso. Não dá para, da mesma forma com que acontece a violência contra a mulher, a população ver o que está acontecendo e não conseguir nominar. É preciso dar nome para isso na nossa prática e está imbuído de uma construção de uma psicologia antirracista.

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