19 de abril – Dia de Visibilidade à Resistência dos Povos Indígenas

dia dos povos indígenas

Apesar de ter sido incluído no calendário brasileiro e de vários outros países americanos ainda na década de 1940, após o 1º Congresso Indigenista Interamericano realizado em Patzcuaro/ México, o Dia dos Povos Indígenas lembrado a cada 19 de abril até hoje é referenciado erroneamente em muitos espaços sociais, os quais além de limitar a visibilidade desta população a uma única data no ano, em suas alusões também reforçam estereótipos e fetiches sobre a imagem, cultura e modos de viver dos povos originários que só no Brasil representam 305 etnias com 274 línguas diferentes.

Com o objetivo de ajudar a desmistificar a data e transmitir à categoria e à sociedade um pouco sobre a realidade de luta e resistência diária dos povos indígenas no Brasil, o Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP-23) conversou com Kamutaja Silva Ãwa, indígena do Povo Ãwa (Ava-Canoeiro), acadêmica do curso de pedagogia e membra da Comissão de Psicologia e Povos do Cerrado do CRP-23.

Na entrevista,  Kamutaja fala sobre o significado do 19 de abril para os povos indígenas, a luta do movimento indígena no Brasil e os efeitos da pandemia no território, abordando ainda o processo de vacinação contra a covid-19 para as populações indígenas no Tocantins e o papel da Psicologia diante deste cenário. Confira:

CRP23O que a data 19 de abril representa na luta dos povos indígenas do Brasil?

KAMUTAJAO dia 19 de abril representa a nossa visibilidade, a visibilidade da luta pela proteção do território, pela demarcação, justiça pelos parentes assassinados e a nossa resistência enquanto povos tradicionais. A nossa luta é diária, desde quando os invasores chegaram a Pindorama e o transformaram no Brasil, todo dia é dia dos povos indígenas, todos os dias lutamos para sobreviver como indígena, porque viver em um país com racistas, preconceituosos e ignorantes não é fácil, os negros, os pobres e nós indígenas sabemos muito bem a dor da discriminação.

CRP23Atualmente, quais são as principais pautas defendidas pelo movimento indígena no Brasil?

KAMUTAJA  O movimento indígena desde nossos ancestrais que não tinham convivência com os baíras (não indígena) sempre lutou pelo território, contra as invasões de madeireiros, garimpeiros, caçadores ilegais, pescadores ilegais. Nossos ancestrais lutaram para manter seu povo vivo, e nós somos o resultado dessa luta, somos a geração de guerreiros dando continuidade a essa luta, que é a proteção dos territórios, lutamos contra os variados tipos de invasão, lutamos por demarcação, contra o racismo e preconceito dos estereótipos, lutamos contra um governo que a todo custo tenta de forma indireta e direta tirar os direitos que conquistamos. Direitos que foram conquistados com sangue, lutamos para mantê-los na Constituição de 88.

CRP23Quais os maiores desafios que a pandemia tem imposto ao seu povo?

KAMUTAJA – Um dos desafios é não estarmos em nosso território Taego Ãwa para combatermos essa maldição, mais um dos problemas enfrentados é a paralisação do processo de demarcação. A FUNAI-FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO simplesmente não retornou a atividade de levantamento fundiário dos atuais ocupantes do nosso território no ano de 2019 e hoje usa como manobra política o novo coronavírus para não terminar o processo de levantamento fundiário que termina dentro de um mês, caso voltem a realizar esse trabalho. Um outro problema foi a fake news sobre a vacina que impediu que todos os Ãwa do estado do Tocantins se deixassem vacinar. Eu não fui vacina porque estou sendo discriminada por morar na cidade, portanto segundo o governo eu não tenho legitimidade para imunizar-me.

CRP23Como você avalia o processo de vacinação contra a COVID-19 para a população indígena no Tocantins?

KAMUTAJA – O processo de vacinação não ocorreu como nos outros anos, pois todos os indígenas tinham direito de imunizar-se, então no combate ao novo coronavírus, o que chegou como campanha de vacinação foram as fake news nas aldeias impedindo que muitos parentes indígenas se vacinassem e a discriminação à nós indígenas que moram na cidade. Portanto o processo de vacinação não passa de uma ilusão de que o estado brasileiro esteja cumprindo com seu papel na etapa de imunizar um povo que está no grupo de risco, indo na contramão da proteção e dos direitos da saúde indígena. Inclusive teve não indígena que mora na aldeia e foi vacinado, enquanto o meu direito está sendo negado. QUERO SER IMUNIZADA!

CRP23Em que a Psicologia pode contribuir para diminuir os danos causados à população indígena neste cenário de pandemia?

KAMUTAJA – A Psicologia pode e deve contribuir de forma direta, pois essa luta é uma luta psicológica, que sofremos muito quando vivemos o racismo e o preconceito. A psicologia tem tudo a somar na luta contra a negação de nossos direitos. Porque essa negação nos fere fisicamente e mentalmente, e precisamos estar firmes e fortes para dar continuidade a nossa resistência e a nossa sobrevivência enquanto povos tradicionais, que luta e dar continuidade à luta dos nossos ancestrais.

 

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